www.100Atalhos.com  Saber mais sobre: PEDESTRIANISMO | MONTANHISMO | BTT | CANOAGEM

  DOWNLOADS  ::  LINKS

AS CAMINHADAS

As Caminhadas »»

O BTT E OS TRILHOS

O BTT e os Trilhos

OUTRAS AVENTURAS

Outras Aventuras...

SOBRE O GRUPO

O Grupo...

Site ...

» Def. como HomePage
» Adic. aos Favoritos
» Abertura: 07/02/05
 

Produzido por:

Nº de Visitas:

[ 1062557 ]

 

Caminhadas / Percursos Pedestres                                                    «« Voltar 

Na Rota da Lagoa Escura (Serra da Estrela)                                               Data: 11-09-2016


www.100atalhos.com » Grupo Aventura 100atalhos Click na foto para ampliar! Click na foto para ampliar! Click na foto para ampliar!
Click na foto para ampliar! Click na foto para ampliar! Click na foto para ampliar!
Click na foto para ampliar! Click na foto para ampliar! Click na foto para ampliar!
 

TRACK GPS

MAPA

PERFIL ALTITUDES

Download

Visualizar

Visualizar

» Nº de Downloads: 130

   

 
 


Com inicio junto ao parque das Salgadeiras (N40 20.273 - W7 36.946), seguimos em direção ao Cume, passando pelos barros vermelhos com destino à Lagoa comprida. Chegando à lagoa comprida contornámos a mesma pela esquerda onde fizemos uma visita ao túnel da Lagoa dos Conchos e do Covão do Meio. Para quem ainda não sabe, na lagoa comprida desaguam dois Túneis: o do Covão do Meio, com 2354 metros que desvia a água das encostas da Torre, e o do Covão dos Conchos com 1519 metros que desvia as águas da Ribeira das Naves. Após visita a estes locais seguimos para a lindíssima Lagoa Escura. O Objetivo principal desta caminhada era sem dúvida a Lagoa Escura, lembro-me há uns anos atrás ler uma lenda sobre esta Lagoa, e desde essa altura que ficou prometida uma visita. Após pequena paragem na lagoa Escura seguimos em direção ao “paredão” da Lagoa Comprida usando as mariolas existentes, o que nos facilitou na escolha do melhor caminho a seguir.

LENDA DA LAGOA ESCURA
"Quando em 1881 chegou à Serra da Estrela a expedição científica incumbida de fazer a sondagem da lagoa Escura para lhe determinar a profundidade, enorme alvoroço se apossou dos pastores da região.
Um vento fresco punha em desordem os cabelos do jovem cientista. Mas estava demasiadamente entregue ao seu trabalho para se preocupar com o penteado. De súbito, um desconhecido, que até ali se conservara em silêncio, gritou-lhe, aflito:
— Senhor! Não deveis pôr isso dentro da lagoa!
O homem voltou-se. Viu o jovem pastor com expressão temerosa. Sorriu-lhe e explicou:
— Isto que vês é um bote de lona.
— E para que o meteis na água?
— Para medir a altura do fundo.
— Mas a lagoa não tem fundo, meu senhor!
O cientista olhou-o com ar de troça.
— Não tem fundo a lagoa? Quem inventou semelhante disparate?
Ingenuamente, o pastor declarou:
— Foi o meu pai quem mo disse. E foi meu avô quem o disse ao meu pai!
E quem contou isso ao teu avô?
— O meu bisavô.
— Claro! Foram os teus avós e bisavós que inventaram tudo isso!
O pastor insistiu:
— Não inventámos nada, meu senhor. Quando há tempestades, aparecem aqui monstros vindos do mar!
O cientista desatou a rir. Encarou o jovem pastor e tentou convencê-lo.
— Olha, homem: tudo isso que me contas são histórias! Tudo histórias! Não existem monstros, nem a lagoa está ligada ao mar!
As feições do pastor tornaram-se mais duras.
— Quereis saber mais que os antigos? Eu já vi bocados de navios engolidos pelos mares a boiarem aqui, nesta lagoa!
O jovem cientista franziu as sobrancelhas.
— Já viste? Tens a certeza?
— Tenho, sim! Vi-os aqui, com estes olhos que Deus me deu! Foi num dia de tempestade…
O cientista meneou a cabeça.
— O que faz a crença! Até vêem o que não existe!
O pastor empertigou-se.
— Juro que vi!
O seu interlocutor olhou-o bem nos olhos; e sentindo que era forte demais a convicção do pastor para a rebater com palavras, resolveu ser mais concreto.
— Ouve? Amanhã virei aqui tomar banho.
O pastor olhou-o como se estivesse na presença de um louco. E gritou quase:
— Morrereis, senhor! O monstro chavelhudo virá agarrar-vos, levando-vos para o fundo do mar! Depois… talvez encontrareis a moura encantada!
O cientista voltou a sorrir.
— A moura? Qual moura?
— A que a fada da Serra levou para o mar, roubando-a aos Lusitanos!
O jovem cientista mostrou-se interessado.
— Conta lá essa história.
— Não sei mais nada, senhor. Só sei que ela queria casar com um cristão. Mas mataram o homem, e a ela levaram-na por esta lagoa dentro.
O cientista achou melhor não contrariar opinião tão segura; retorquiu apenas, fingindo um ar contristado:
— Pobre moura! Nunca mais sairá, então, do fundo do mar?
— Sim, meu senhor. E que Deus nos livre disso!
— Porquê?
— Porque a moura só será desencantada quando um guerreiro da sua raça e da sua fé tenha a coragem de vir libertá-la. E nós não queremos mouros por aqui!
— Nesse caso… a moura ficará para sempre no fundo do mar.
— Assim penso, meu senhor. E agora vou ao meu trabalho. Fique com Deus!
O cientista acenou com a mão ao pastor, e ficou-se a olhá-lo enquanto ele se afastava.

Começava o Sol a descer no horizonte e já os pastores se retiravam com o gado, a caminho dos abrigos. A serra parecia envolvida por luminosidade estranha. Ouvia-se ao longe o tilintar dos chocalhos, quebrando o silêncio.
Coberto com o seu amplo capote, pois começava a esfriar, o jovem cientista ficara pensativo, olhando uma vez mais a sumptuosa e bela lagoa Escura. O que ouvira da boca de um pastor à hora da merenda fazia-o sorrir. Meditava na ingenuidade dessa gente, tão sã de corpo como de alma.
De súbito, uma erva seca estalou no chão. Ergueu o olhar e viu uma bonita rapariga de expressão amedrontada, caminhando a medo para a lagoa. O seu olhar de brilho intenso estava pousado nas águas, a que o cair da tarde dava aspecto ainda mais sombrio. Tão embevecida estava, que nem reparou na presença de mais alguém. Os seus lábios carnudos e sadios murmuraram, de leve, uma espécie de oração bastante estranha. Levantou o olhar ao céu. Só então descobriu que não estava só. A sua expressão mudou. Não conseguiu abafar um grito. E dispunha-se a fugir, quando o cientista a agarrou pela manga da blusa.
— Sossega! Não te faço mal! Não precisas fugir! Vinhas em busca da moura encantada?
Os olhos da rapariga fixaram o jovem desconhecido. Havia medo no seu olhar. Ele voltou a falar-lhe, sorrindo quase com ternura:
— Tens medo de mim?… Porquê? Não te quero mal.
A jovem pastora tremia. E perguntou:
— Acaso sereis… o tal guerreiro mouro?
Sorriu mais o jovem cientista.
— Quem? Aquele que há-de vir desencantar a princesa moura?… Não, não sou… nem creio que ele chegue a vir.
Sempre a medo, ela interrogou de novo:
— Então… quem sois? Vindes de longe?
— Sim, venho de longe. Faço parte da expedição que chegou ontem, e vimos trabalhar aqui, na lagoa Escura!
O medo da rapariga deu lugar à estupefacção.
— Trabalhar aqui? Como? Os monstros não vão deixar!
— É o que tu pensas. Mas eu não acredito em monstros, nem em mouras, nem em lagoas sem fundo. São tudo histórias de lareira.
Afligiu-se, de novo, a jovem pastora:
— Virgem Nossa Senhora! Porque desdenhais os nossos antigos?
— Porque isso é tudo fantasia.
— Tudo quê?
— Ora!… Tudo coisas que se dizem.
A pastora olhou-o por uns instantes, sem responder. Depois dispôs-se a voltar para casa, não fossem os espíritos persegui-la.
— Com vossa licença vou-me andando, que se está a fazer noite…
Ele voltou a segurá-la.
— Espera um pouco e diz-me: que vieste aqui fazer sozinha? Eu sei que vocês procuram sempre outro caminho.
A jovem pastora mostrou-se embaraçada.
— Foi mal pensado, foi. Mas dizem que a rapariga que vier aqui sozinha ao pôr do Sol pedir à moura que lhe encaminhe bem os seus amores é atendida. Por isso eu vim…
O cientista abanou a cabeça.
— Oh, cachopa! Porque razão hão-de fazer preces à moura?
— Porque ela também amou e sofreu por um lusitano cristão. Ela quis ser cristã. Devia ser dos nossos. Era muito boa e muito linda. Mas a fada má encantou-a, levando-a para o fundo do mar, por esta lagoa!
O jovem cientista deixou cair os braços, num desalento.
— E vá lá a gente dizer que isso não é assim!… Olha, pequena: que dirias, se me visses amanhã, à hora da merenda, tomar banho nesta lagoa?
Ela recuou como se tivesse visto um fantasma. A sua voz tremeu.
— Não façais isso, senhor! A menos… que sejais o tal guerreiro mouro…
E olhava-o, de olhos esbugalhados. Ele sorriu.
— Que ideia a tua! Não vês que não sou nenhum fantasma? Olha! Amanhã vamos pôr ali um barco e remexer as águas. Vem, e trás companhia. Hás-de gostar de ver.
— Não! Não quero ver morrer ninguém!
— Não morrerei, garanto-te.
E sorrindo-lhe mais:
— Como és bonita, com esse olhar de pavor! Um olhar que só pode igualar o das mouras encantadas.
Foi o suficiente para a rapariga se libertar das mãos do jovem cientista e correr serra abaixo, dizendo:
— É ele! É o guerreiro mouro! Que Deus me valha!
Parecia uma avezita tonta, a pobre moça! O homem ficou a contemplá-la. E pensava como seria bom possuir o amor de uma mulher tão infantil, tão diferente das outras da cidade!
Lentamente, começou também a descer a serra. O Sol parecia acompanhá-lo nesse ocaso. Mas o pensamento do cientista continuava lá, na lagoa Escura, tentando imaginar qual seria a reacção dos pastores quando, no dia seguinte, a caravana dos cientistas e trabalhadores tomasse de assalto essa lagoa rodeada de silêncio e mistério.
O Sol estava a pino, pondo reflexos dourados em tudo quanto tocava. Na lagoa Escura a azáfama era grande. Lançavam o bote a àgua, perante o pasmo de alguns pastores que os observavam. O jovem cientista olhou em volta. Procurava os seus dois conhecidos da véspera. Acabou por descobri-los. Eram eles o pastor com quem estivera a falar e a jovem pastora que tanto se assustara ao tomá-lo pelo fantasma do guerreiro mouro. Vendo-se descoberta, ela escondeu-se. Mas o jovem cientista chamou o pastor.
— Eh, tu! Anda cá!
O pastor hesitou.
— É a mim que chamais?
— Sim, tu! Aproxima-te!
O serrano aproximou-se.
— Deus o salve, senhor!
O cientista bateu-lhe amigavelmente num ombro:
— Então? Que dizes a isto? Ainda não apareceram monstros chavelhudos, como tu disseste…
— Por enquanto não, meu senhor…
— Pois vou despir o casaco e deitar-me à água, tal como prometi!
— Cuidado, senhor!
Ele riu. Procurou de novo com o olhar a jovem pastora. Ela fitava-o, espavorida, procurando esconder-se.
— Eh, cachopa! Não te escondas, que bem te vejo! Olha, vou ver se encontro a tua moura…
De um salto, o jovem cientista entrou pela água da lagoa. Um grito uníssono saiu da boca da assistência. Alguém comentou:
— Mas ele deitou-se mesmo à água!
Outro opinou, aflito:
— Vai aparecer o monstro! É melhor fugirmos!
A debandada começou. Mas alguns serranos deixaram-se ficar, como colados ao chão. Entre eles, o pastor e a pastora com quem o cientista havia conversado.
O jovem nadava, olhando-os, prazenteiro, triunfante. Bradou-lhes:
— Como vêem, não há monstros na lagoa! Andem daí, rapazes! Venham ver como falo verdade!
Alguns recuaram. Mas o Zé Branco, um pastor jovem com ar desempenado, saiu do grupo.
— Raios me partam, se não vou também!
Uma voz feminina gritou, aflita:
— Zé, não vás! A ele não lhe acontece mal porque é o guerreiro da moura!
O cientista compreendeu que esse jovem pastor era o namorado da pastora com quem falara. E incitou-o:
— Vamos! Mostra que és homem!
Ela gritou, de novo:
— Não vás, Zé, que morres na lagoa!
O jovem pastor encheu-se de brios.
— Não vou, porquê? Sou homem como ele! E mais sabido do que vocês todos! Estive no Porto, quando cachopo, e lá aprendi a nadar. Conheço o mar e os seus abismos!
O cientista animou-o.
— Isso é que é falar! Vem daí, que já estou a arrefecer!
Zé Branco despiu o casacão, tirou as botas e atirou-se a água. Porém, mal entrou nela, fez-se muito pálido. Voltou os olhos para terra. Abriu a boca sem poder falar. E deixava-se ir para o fundo da lagoa, se o cientista não lhe tivesse jogado a mão. Trouxe-o logo para terra, transido de pavor. Os outros homens persignavam-se. A jovem pastora chorava. Acercaram-se dele. Um deles perguntou:
— Que te aconteceu, Zé Branco?
Tentando alinhar as frases, o pastor respondeu:
— Puxaram-me! Senti que me puxaram para o fundo!
Todos fizeram um sinal afirmativo com a cabeça. O que diziam os seus avós estava confirmado! E por mais que o jovem cientista tentasse explicar que o puxão que ele julgava sentir não fora mais que a pressão feita pelo próprio fato por se ter prendido em qualquer planta aquática, eles não acreditavam. Olhavam o homem que viera de longe profanar as águas da lagoa como um verdadeiro fantasma. E a jovem serrana, antes de descer a serra de volta a casa com o Zé Branco, rogou ao cientista:
— Se falais com a moura… dizei-lhe que me faça o que lhe pedi!
Sorriu-lhe o jovem. Não havia outro remédio. A tradição era mais forte que tudo no mundo. Mais forte que a realidade!
Ficou a olhar o grupo que se afastava, deixando-o como fantasma perdido. E ao ficar só — pois os seus companheiros haviam também começado a debandar — o cientista olhou de novo a lagoa Escura. E pensou na moura encantada e no guerreiro lusitano por quem se havia apaixonado.
Como era bela e poética a imaginação do povo! Como era forte a sua crença! Tão forte, que ainda hoje esta lenda subsiste.

**Fonte Bibliográfica: MARQUES, Gentil “Lendas de Portugal”, Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 135-140"

.
Contactos Úteis:
B.V. Seia: 238 310 315
G.N.R. Seia: 238 310 300
Centro de Saúde de Seia: 238 315 715
Hospital de Seia: 238 320 700
Posto Turismo de Seia: 238 317 762

 

. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .

..:: © 100atalhos.com | Webmaster: Luís Veloso ::..
Optimizado para ser visto numa resolução de 1024x768.